Nos primeiros meses do ano passado esta casa aprovou por unanimidade a concessão do título que se torna realidade na noite de hoje. Nosso agraciado, Carlos Augusto Diógenes Pinheiro, nasceu na cidade de Jaguaribe, interior do Ceará, em 1944, filho de Carlos Xavier Pinheiro e Raimunda Diógenes Pinheiro. Aos quatorze anos veio continuar os estudos em Fortaleza. Passados alguns anos, em 1964, entrou no curso de Engenharia Civil da Universidade Federal do Ceará. No mesmo ano do nefasto golpe militar que completou 45 anos dois dias atrás Carlos Augusto ingressou no Movimento Estudantil, já como militante do Partido Comunista do Brasil, o PCdoB.
Em 1966, segundo ano da ditadura, o jovem Carlos já participava da Direção do 1º Comitê Universitário do PC do B no Ceará. Em dezembro de 1968 a ditadura embrutece por completo. Com a decretação do Ato Institucional Número 5 - o AI-5 – restringem-se ainda mais as liberdades, a repressão fica mais violenta, militantes do movimento popular e do movimento estudantil, como o jovem estudante de engenharia, são perseguidos e presos. Naquele dezembro nebuloso e brutal de nossa história, Carlos Augusto forma-se engenheiro pela UFC.
Nos anos de estudante Carlos Augusto foi bolsista da Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste (SUDENE), coordenando o dinheiro das bolsas concedidas aos jovens por aquele órgão. Muito rígido com os recursos que coordenava logo os outros bolsistas viram naquele comportamento semelhança com um famoso personagem das histórias em quadrinhos. Ali nasceu o Patinhas, apelido carinhoso que acompanha Carlos Augusto até hoje.
Do final de 68 para o ano de 1969 Patinhas entra na clandestinidade, vai morar no Rio de Janeiro e posteriormente no interior da Bahia. Em Barreiras, interior baiano, trabalha na SUVALE até se demitir para não ser preso. Ainda em 1969, quando membro do Diretório do partido no estado, conhece Noélia, militante e dirigente comunista, estudante do Colégio Central da Bahia, em Salvador, o “quartel general” do movimento secundarista baiano. Na região cacaueira do sul do estado, trabalha como agricultor entre 1970 e 1971. Em setembro daquele ano casa-se com Noélia, e o jovem casal comunista começa a vida na clandestinidade, selando com amor a luta de ambos.
No final de 1973 estavam em São Paulo; ele como peão da construção civil. De 1975 até a decretação da Anistia, em agosto de 1979, moraram na Região Amazônica (Mato Grosso, Rondônia, Acre), onde Patinhas trabalhou como Topógrafo. Alguns meses depois os dois retornam para reatar o contato com o partido, perdido com a ocorrência da chacina da LAPA, em São Paulo.
Em 1979 o casal foi designado para ajudar na reorganização do partido no Ceará. Aqui chegando Patinhas reencontra Fortaleza, emprega-se por pouco tempo como engenheiro civil, mas logo tem de se dedicar integralmente ao partido e a reorganização do movimento popular. A atuação do casal ajuda no crescimento do partido; a militância comunista contribui na reorganização do movimento estudantil secundarista e universitário (centros cívicos, grêmios livres, C.A’s, DCE’s), do movimento sindical(sindicatos, entidades de classe) e no nascimento de um movimento comunitário forte e combativo, culminando com a criação da Federação de Bairros e Favelas de Fortaleza, entidade que tive a honra de presidir. A esposa Noélia também estava empenhada na organização partidária e do movimento popular, tendo sido decisiva no nascimento do movimento de mulheres de Fortaleza e uma das fundadoras do histórico Centro Popular da Mulher, o CPM, precursor da luta feminina na cidade.
Aproveito esta passagem do breve relato sobre a vida de Carlos Augusto para render homenagem, como militante do movimento de mulheres que sou, a minha companheira Noélia, uma baiana que abraçou Fortaleza junto com seu companheiro. |Acredite camarada, que o título conferido hoje ao seu companheiro também significa o reconhecimento da cidade a sua abnegação, combatividade e companheirismo.
Entre o ano do regresso e os dias de hoje não há luta de nossa gente que Patinhas não tenha participado. Quando estudante foi uma das lideranças das bravas passeatas de oposição à ditadura que pediam liberdade, democracia e agitavam a Avenida da Universidade, o Liceu do Ceará e as praças do centro da cidade, junto com jovens como Dower Cavalcanti, Custódio Saraiva, Bérgson Gurjão e tantos outros lutadores e lutadoras. As passeatas da Lata Vazia, a Campanha das Diretas Já, o Fora Collor, as muitas lutas estudantis, sindicais e comunitárias da cidade, as disputas e as duas eleições de Lula, os pleitos estaduais e municipais, como as eleições de Cid e Luizianne, contaram sempre com a presença ativa e militante de Carlos Augusto.
Assim como os familiares, parentes, amigos e amigas os três filhos de Patinhas e Noélia sempre testemunharam a participação combativa dos pais nas muitas lutas e conquistas do povo de Fortaleza, do Ceará e do Brasil.
Nesta noite é dada a mim a oportunidade e a honra de tornar realidade a proposição aprovada pelos meus pares e homenagear o jaguaribano que veio encontrar Fortaleza nos últimos anos da década de 50 do século passado. Mulher de coração fortalezense nascida em Canindé, partilho com Carlos Augusto e outros milhares de cearenses a sina daqueles e daquelas que vieram para a capital buscar melhores condições de vida e aqui criaram raízes. No passado, longe da terra que escolheu para viver, Patinhas muitas vezes encontrou alento na voz de Luis Gonzaga cantando Asa Branca, música composta em parceria com o Iguatuense Humberto Teixeira e símbolo da tristeza do exílio involuntário que parte do nosso povo experimentou e ainda experimenta. Hoje, estamos em tempo de chuva. Estamos em noite de festa.
Carlos Augusto Diógenes Pinheiro, o nosso Patinhas, militante e presidente do Comitê Regional do PCdoB, partido que completou 87 anos de luta pelo socialismo no último dia 25 de março, engenheiro civil, pai, esposo e companheiro dedicado, completa cinquenta anos de capital do Ceará em 2009. Nada mais justo do que a Câmara, em nome do povo da cidade, conferir a este homem o título que sua vida, história e luta já conquistaram: o de cidadão de Fortaleza.
Eliana Gomes